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domingo, 10 de junho de 2012

AS MENTIRAS QUE OS AMERICANOS CONTAM

Já repararam que tudo americano diz que inventou?

Estava ali folheando uma revista quando me deparei com a informação de que Frank McNamara foi quem teve a ideia do cartão de crédito. Mentira! Todo mundo lá no sertão do Ceará sabe que o cartão de crédito foi inventado por Severino Olegário ou Severino das Meias conhecido mascate - também popularmente tratado pelo codinome de marreteiro - e concorrente lá nos primórdios dos tempos com Samuel Klein que ,como todo mundo sabe, criou as Casas Bahia e o crediário em 24 vezes.

Pois bem, reza a lenda que Severino descia pelo sertão do Ceará na rota de Quixeramobim pra Orós e depois voltando por Tauá e Cruzeta ia bater lá no Crateús pra vender as famosas meias de seda que naquela época eram coqueluche nas pernas das moças nos salões do Rio de Janeiro e Nova York. Como as viagens demoravam muito e o maior conforto que se tinha era andar montado num jegue  com sela Sião, a maior preocupação de Severino, além dos enjoos que sofria no trote do jegue, era ser assaltado naquelas veredas por onde já tinham   passado cangaceiros famosos como os irmãos Nezinho e Zeferino quando fugiram da Paraíba depois de  arrancarem os trilhos da estrada de ferro e sequestrado os engenheiros da Great Western. 

Então um dia ele teve a brilhante ideia de criar uma forma de garantir crédito onde quer que fosse. Mandou fazer um cento de cartões, que eram os protótipos do cartão de crédito, com os dizeres: 

CARTÃO CREDIRINO
ACEITO NAS BUDEGAS E MERCEARIAS DE FORTALEZA AO CRATO


A coisa pegou tão bem que logo ao invés da caderneta de fiado, Severino mandou fazer uns cartões de papelão duro onde ele lançava as conta contábeis dos seus clientes. Daí quando ele começava sua rota de venda, passava em todos os comércios acertando as contas de seus clientes e passando nas casas deles pra receber os pagamentos.

A ideia foi tão compartilhada entre as pessoas - que poderia ser chamado de faceboca - que até Amelia Earhart e Orson Welles quando tiveram no Ceará quiseram conhecer Severino. Amelia queria dar uns vôos rasantes sobre a Praça do Ferreira com Severino a bordo, mas este se esquivou alegando problemas de enjoos: "Se no jegue eu já baldeio, imagine avoando nessa coisa feito carcará", teria dito a um de seus biógrafos. Sobre seu contato com Orson Welles pouco se tem certeza se de fato aconteceu, embora um de seus primos corrobore a informação que Welles teria vindo ao Brasil para filmar a vida de Severino e não do jangadeiro Jacaré, mas por intervenção do FBI e da CIA, o conhecimento do litoral brasileiro do Ceará ao Rio era mais estratégico naquele momento que o sertão cearense.

Depois  logo vieram uns "mazelementos" americanos durante a criação da base aérea de Fortaleza e surrupiaram a mala de Severino com todas as informação e levaram pros "esteites" onde deu no que deu depois que um sarnento, foragido e exilado da caatinga de nome Eliotério Anestésio   traduziu os alfarrabios codificados em nordestanês e a aritmética derivativa da gameleira oitiva de Severino pros estudiosos de Harvard, Wall Street e afins.

É como se diz por aí: "Papagaio come e periquito leva a fama".

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

RECALL X TEST DRIVE

 

Aproveitando o recall que uma famosa marca de preservativos está realizando em produtos com defeito, Arnaldo vai aproveitar e pedir pensão pro filho que nasceu nove meses atrás por conta de um preservativo furado, cuja prova - a própria camisinha - ele guarda até hoje num potinho hermeticamente fechado dentro da geladeira.

Eu sempre fico desconfiado quando uma empresa anuncia que vai fazer um recall nos seus produtos. Embora, a primeira vista, pareça compromisso com o consumidor em oferecer um produto de qualidade, eu também penso que a empresa tentou fazer economia em algum lote de fabricação e aí a coisa deu errada e o mercado foi inundado com produtos defeituosos. Daí pra limpar o nome antecipadamente a empresa vem com esse papo de recall. É aí que acho que Arnaldo não tá doido.

Aliás, algumas décadas atrás a gente nem ouvia falar de recall. Você comprava um produto e se desse sorte ele durava muito tempo, se não, tava lascado. Só outro. Depois a onda emplacou e olha onde chegamos...recall de preservativos. E a coisa vai engendrar porque essa semana um sul-africano apresentou no mercado uma maneira super-extra-rápida de colocar o preservativo. É a Revolução Industrial chegando nas genitálias. A colocação é tão ligeira que parece até que vai envelopar os dedos.

Pra mim, antes do recall, o melhor é fazer antes o test drive. Vê o caso dos casamentos com validade de dois anos. É um test drive. Deu certo, ok! Não deu, cada um pro seu lado. Porque se forçar a barra, daí uns anos depois é recall de peito, de bunda, barriga, de pinto. Mas isso tudo não é novidade de agora. O diabos é que tudo que é novo o povo pensa que são os americanos que inventam, mas eu sei que não é não. O pessoal pensa que a gente não tem ideia criativa. Uns anos atrás, Romulado aprontou uma coisa muito parecida lá no interior. Ele muito taradão por Doquinha, doido pra dar uma despirocada naquele piteuzinho mas a mãe dela só liberava a filha se ele casasse, coisa que ele não tava afim de fazer. Daí, menino viajado, meteu o papo em Doquinha e ela fugiu com ele deixando D. Esmeraldina aflita e a filha descabaçada. Na manhã seguinte  à fuga, perdida toda a esperança de ter notícias da filha, eis que aparecem Romualdo com Doquinha na soleira da porta  da casa, dizendo: "D. Esmeraldina, vim devolver sua filha, a menina é muito limpa e educada, mas me desculpe, mas ainda não serve pra casar."

Moral da história: se fizer o test drive antes, não necessita fazer recall depois.

sábado, 30 de abril de 2011

TAPETES


Tenho 40 anos e nunca pensei em casar. Minha relação com o amor é da forma mais piegas que eu conheço desde a adolescência quando li  Vinícius: "que seja infinito enquanto dure". E assim tem sido e eu tenho mantido meus relacionamentos ao longo destes anos com mulheres maravilhosas que tem cada uma delas, a sua maneira, deixado marcas na minha vida e lembranças que se perpetuam inesperadamente.

Heloísa, a mais recente delas, estranhou quando a levei pela primeira vez na minha casa e viu um cômodo cheio de tapetes. Não perguntou nada, mas pude perceber em seu semblante a curiosidade anunciada. Mais tarde, com a relação mais íntima e cheia de curiosidade me perguntou sobre a origem daqueles tapetes, então lhe disse:
-São lembranças de minhas antigas namoradas!

Ela me encarou como se eu fosse um psicopata, afinal as pessoas guardam fotos, cartas, bilhetes....mas tapetes? Só psicopatas e serial-killers guardam tapetes para enrolar suas vítimas e depois jogá-las no fundo do rio com pesos no pés. Então, antes que ela tivesse ideias absurdas a meu respeito, resolvi lhe contar a minha história, da forma mais detalhada possível, porque já havia repetido tantas vezes para as outras mulheres da minha vida.

Tudo começou com Magda. Goiana, do interior e acostumada à vida natureba de acampamentos e luaus, sugeriu que comprássemos um tapete para fugir da rotina da cama, pois havia um espécie de dualismo do objeto, tipo: cama = lugar de sexo e cama = lugar de dormir, e isso mais cedo ou mais tarde iria interferir na nossa relação. Achei aquilo interessante porque eu mesmo tinha uma espécie de ojeriza de televisão no quarto de dormir. Logo depois ela apareceu com um tapete e umas almofadas indianas e criou todo um clima sensual no nosso ambiente que simbolicamente batizamos de As Mil e uma Noites de Amor. Mas, um dia, a mágica acabou, ela foi embora, o tapete ficou e eu o guardei enrolado lá no cômodo.

Quando comecei minha relação com Célia ela me perguntou do tapete e após contar a história, que estranhamente ela achou muito divertida, ela também resolveu comprar um tapete para criar nossa própria história. Célia era chegada nestas coisas de quiromancia e astrologia e toda vez que a gente ia usar o tapete ela o circulava com incensos e cachepos com velas aromatizadas e particularmente entoava uns mantras antes, durante e após nossas sessões de sexo.

Aí toda namorada que surgia na minha vida ouvia estas histórias e comprava seus próprios tapetes. Nas minhas entressafras amorosas, confesso que muitas vezes desenrolava um deles e ficava me lembrando e sentido saudades de tudo que havia acontecido sobre eles.

Senti uma ponta de ciúme em Heloísa depois que ela ouviu minha história, mas eu já tinha visto isso antes em outras namoradas. No dia seguinte Heloísa apareceu lá em casa com um belo tapete e me disse:
- Vamos fazer nossa história neste tapete!

E assim durante os oito meses seguintes em que durou o nosso relacionamento o tapete foi testemunha de nossa paixão e de nossas fantasias.

Nosso relacionamento desandou quando Heloísa chegou lá em casa sem avisar e me encontrou deitado num outro tapete, que havia pertencido a Kate, uma inglesinha que veio fazer um intercâmbio aqui no Brasil alguns anos atrás. Ficou inconformada, falou em traição, que eu não prestava, que homem é tudo a mesma coisa...

Tentei lhe explicar que as pessoas não controlam suas lembranças, seus pensamentos...Mas foi em vão. Forjamos uma paz pra recuperar a confiança perdida, mas passamos a dormir e a fazer sexo na cama. Com o passar do dia só dormíamos. O sexo não fazia sentido na cama. O encanto havia se quebrado. Maldito Vinícius que descobriu a fórmula do fim do amor!

Um dia quando cheguei em casa não encontrei nossa tapete, apenas um bilhete em seu lugar que dizia:
-Se você não pode me amar como eu mereço, não posso permitir sequer que você fique com lembranças minhas. Adeus, H!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O VELHO ARQUIBALDO


A última vez que vi o velho Arquibaldo ele cruzava a praça com sua espada enterrada nas costas carregando sua faina de Sísifo indigente.

Ninguém sabe ao certo desde quando ele tem aquele metal reluzente cravado na carne. Uns dizem que o ferimento foi adquirido durante as Guerras Púnicas, mas há quem afirme que esse desassossego vem desde a época de Alexandre, o Grande, em sua incursão na Ásia. Não sei ao certo, é verdade, e nem convém questionar a sua dor, porém certa vez a curiosidade aguçou meus sentidos e então lhe perguntei sobre o ocorrido, mas a demência que já lhe atingiu as faculdades mentais e lhe impõe devaneios fez com que ele começasse a dissertar sobre o ciclo reprodutivo da poecilia reticulata durante o verão nos charcos mexicanos.

Às vezes percebo que ele fica balbuciando palavras incompreensíveis como um velho alquimista medieval enquanto alimenta as aves, mas eu poderia jurar que tais palavras são poemas de Homero recitados em grego arcaico. Porém, como de outras vezes, eu posso estar enganado e o velho Arquibaldo esteja apenas falando a linguagem dos pombos.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O ATIRADOR DE DARDOS


Quando atingi uma certa idade e a melancolia de que o tempo agora entraria em contagem regressiva e que a morte, este animal covarde e traiçoeiro, viesse me abocanhar em silêncio, passei por um período de catarse diárias até que o hiato entre as distâncias do que tinha feito antes se tornaram cada vez mais esparsas e um dia me interessei por dardos. 

Num catálogo, presenteado pelo samorim das Índias, encontrei um modelo muito antigo que logo  me agradou e então liguei para a loja para encomendá-lo. Não demorou até que o entregador aparecesse na minha porta com a encomenda em uma caixa de papelão cru semelhante às embalagens de pizza. Passei a ocupar meus dias com este ofício. 

Instalei o alvo no terraço pra escapar do mofo que habitava na casa. No princípio praticava sozinho, mas depois vieram os pássaros e a presença deles me causou certo aborrecimento a ponto de me fazer retornar ao interior da casa.

Aperfeiçoei-me rapidamente ao equilíbrio dos dardos e logo me cansava a monotonia quando resolvi praticar alvejando as flores. Especialmente as vermelhas e as amarelas. Acertava-lhes exatamente no centro evitando assim qualquer dor e oferecendo-lhes uma morte súbita. Consumi todas as papoulas e girassóis até que comecei a invadir os jardins alheios para alvejar outros espécimes. Tornei-me um terrorista procurado pelas donas de casa desassossegadas nos seus matrimônios infelizes.  

Havia atingido tamanha perfeição que comecei a praticar em moscas até que estas se tornaram escassas na minha casa. Então, parei de pôr o lixo na rua com intuito de atraí-las. A prática deu certo durante algum tempo, mas o mau cheiro que exalava começou a me pertubar profundamente.

Um dia, voltando ao terraço, percebi que um equilibrista num monociclo fazendo malabáries com peixes me observava. Intuitivamente fizemos amizade. Ele me convidou para acompanhá-lo numa turnê mundial e eu nem pensei duas vezes. Arrumei meu poucos pertences na velha mala de crocodilo - herança do meu avô, o Imperador Petrúcio III - e partimos.

Fizemos apresentações inesquecíveis para o rei do Tombasquistão, para a princesa negra de Gálaga, para o supremo-sacerdote da corte de Anghastira no alto dos montes nevados da fronteira com o Cratzmequistão. Meu amigo encantava as platéias rodopiando no mocociclo e atirando para cima um cardume de robalos que rodopiavam no ar e se transformavam em anchovas. Recebi o título de grão-mor da tribo dos pigmeus de Bwangar pela minha perícia com os dardos a ponto do imperador me convidar a fazer parte da tribo, convite educadamente recusado por conta do refinado paladar canibal dos pigmeus.

Mas o inverno rigoroso obrigou-me a voltar dos confins da Conchinchina. Rompi meu noivado com a princesa Tai-Mo Sing, e dizem (fiquei sabendo mais tarde) que após minha partida ela chorou tanto que suas lágrimas criaram o lago Rosa na cidade perdida de Sairuan. Mas a partida tornaria-se inevitável. Sentindo uma dor terrível no joelho fui a um médico que retirou da minha perna um dos meus dardos que estavam desaparecidos.

A monotonia bate em minha porta todo dia. Tentando evitá-la me disfarço de coisas invisíveis e vou cada vez mais a lugares improváveis como se fosse possível fugir do inevitável escrito do destino. Mas eu tento. Agora, por exemplo, me distraio passando minhas férias de verão em Magrathea ajudando Slartibartfast a fazer  fiordes na Noruega, embora ele seja um escultor medíocre e feliz.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

BOLAS DE AÇO


O texto a seguir, traduzido do sueco, veio de uma fonte anônima. Uns dizem que foi do WikiLeaks, outros dizem que é originado de uma gravação obtida a partir de uma filmagem encontrada num bordel de Praga. Só uma coisa é certa: de que para transar com uma sueca é necessário ter bolas de aço.

Ele: Finalmente, depois de um mes juntos vamos ter nossa noite de amor...
Ela: Então...Quem espera sempre alcança. Trouxe os resultados?
Ele: Trouxe, tá tudo aqui: exame de sangue, de fezes, de urina, raio-x dos dentes, fiz até o oftálmico
Ela: Esse nem precisava...
Ele: É mas eu fiz...Queria ver você melhor (risos)
Ela: Que lindo...
Ele: Quer tomar um vinho?
Ela: Seria bom. Põe uma música também...

(Ele se levanta vai a cozinha, abre a geladeira, tira o vinho, pega os copos, procura o saca-rolhas, não acha, procura de novo não acha, vai na sala bota a música ela diz que não gosta dessa ele procura outro disco o vinho esquenta em cima da mesa acha um cd que ela gosta põe a música volta na cozinha sobe numa cadeira abre um armário e acha o saca-rolhas. Tempo estimado: 10 minutos)

Ele: Vamos dançar?
Ela: Ok!
(Dançam, ele fica excitado com o cheiro dela ao fim da primeira música já estão no quarto)
Ela: Você trouxe o preservativo?
Ele: Claro! Tá aqui, ó
Ela: Deixa eu ver...
Ele: Tome! Trouxe logo 3!
Ela: Ah, mas estes não servem.
Ele: Mas porque não minha deusa platinada?
Ela: Nem conheço essa marca...Parece que é chinês..Humm deve ser falso...E olha a data de vencimento... Vence daqui a 15 dias...Isso vai furar...E se furar...Já sabe, né?...Estupro!
Ele: Putz mas e agora? São quase dez e meia...Tá tudo fechado...
Ela: Tem uma farmácia de plantão a umas cinco quadras daqui. Por que você não vai lá?
Ele: Sério? Ah, então vou lá

(Ele se veste às pressas, sai do apartamento aguarda o elevador desce quando vai sair se lembra que esqueceu a chave do carro pega o elevador de volta entra em casa procura a chave sorri pra ela sai volta pro elevador abre o carro liga o carro vai até a farmácia compra os preservativos e volta. Dois sinais fechados e uma velhinha de bengala atravessando a faixa de pedestres.Chega de volta. Tempo Estimado: 30 minutos)

Ele: Pronto comprei 5 marcas diferentes: Super Extra, Geladinho, Negão Maluco, Extra Fino Plus Master e um de Tripa de Carneiro
Ela: Esse de tripa de carneiro você dá pra sua vó
Ele: Ah minha deusa nórdica vem cá pros braços do seu viking...
Ela: Ah, você tá muito suado...Vai tomar um banho, vai...

(Ele se levanta e vai ao banheiro tomar um banho a jato. Tempo Estimado: 5 minutos)

Ele: Vem cá, vem cá, minha loirinha popozuda...
Ela: Eu vou meu lobo mau. Cadê o Termo de Consentimento para eu assinar?
Ele: Tá aqui, tome...
Ela: Deixa eu ler...humm...certo...camisinha...consentimento...estupro...hummm..parece que está certo. Pronto assinei.
Ele: Mas pra quê tudo isso pra transar? Vocês não eram assim antes...
Ela: É porque antes as suecas eram todas loiras. Já reparou como tem muitas morenas?
Ele( com cara de bobo): Deixa pra lá. Já assinou mesmo... Vem louraça belzebu...
Ela: Olha tem uma coisa que você precisa saber?
Ele (espantado): Você é casada?
Ela: Não! Não é isso. Eu tenho câmeras no quarto...
Ele(mais espantado): Você é voyeur?
Ela: Não, não! É por medidas de segurança caso você descumpra o Termo e resolva transar sem camisinha.
Ele(desconfiado já brochando) Você não vai pôr isso na intenet, não?
Ela: Claro que não bobinho...Vem cá meu viking...Quero ver sua espada...

(Beijo amasso beijo...beijo amasso beijo de novo...e de novo)

Ela: O que foi amor? Essa espada tá parecendo um canivete....
Ele(deprimido): Foi essa coisa de filmagem...Não consigo relaxar...
Ela: Bobagem...Vamos beber um pouco...Quero ver você livre leve e solto

( Um vinho, dois vinhos, uma excitação, beijo amasso beijo rigidez o celular dela toca. Para tudo!)

Ela: Alô? Sim..Ah...A consulta....Quando? Depois de amanhã? Hummm...Tá certo...Que horas mesmo? Certo, certo...Pode confirmar!
(Desliga o telefone)
Ele: Vem minha deusa que minha espada poderosa te espera...
Ela: Não vai dar...
Ele(decepcionado): Por que?
Ela: Porque minha consulta foi remarcada e eu tenho que fazer uns exames. Daí tenho que ficar 48 horas em abstinência sexual.
Ele(Puto da vida): Porra e eu como é que fico?
Ela: Olha amor não vou fazer você desperdiçar essa tua excitação...
Ele ( com cara + que safada): Vai fazer o quê docinho?
Ela: Meu lindinho não tem mão? Ali no canto tem uma daquelas revistinhas suecas antigas. Pega uma delas e se acaba no banheiro. Tá certo? Eu te Amo!

A gravação é interrompida por um baque surdo seguido de um silêncio mórbido. Um minuto depois ouve-se o som de um carro arrancando cantando pneus.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

NINGUÉM ME AMA, NINGUÉM ME QUER


Dora era muito bonita quando criança. Sua mãe dizia que ela seria miss. Dora ria e desfilava pelo corredor da casa como as misses faziam no programa do Flávio Cavalcante. A mãe escondia os batons Colorama que Dora insistia em usar desajeitadamente cor sobre cor em borrões na sua boca infantil. Aos 16 anos Dora era o protótipo da linda mulher que se tornaria aos 20 despertando o interesse dos rapazes, causando ciúmes nos namorados e nas namoradas alheias. Dora adorava. Sentia-se diva. Aliás, autoproclamava-se D.D. Dora Diva. Ria. Divertia-se flertando com um e outro. Namorava. Desnamorava. namorava de novo. Depois desaparecia. Um dia na praia fez topless. Foi um escândalo. O pai soube. As mães de suas amigas proibiram-na de ir na casa delas. Mas Dora não se importava. Bastava-lhe caminhar um pouco nas ruas, mudar de escola e choviam-lhe pessoas interessadas na sua amizade, no seu sorriso. Naqueles olhos que pareciam brincar. Um dia percebeu que Helena fitava-lhe de modo estranho e às vezes até mordiscava os lábios como faziam os rapazes quando estavam excitados por ela. Depois quando Helena beijou-lhe a boca no banheiro da escola ficou sabendo que ela era mesmo sapatão. Mas não ligou. Helena beijava gostoso. Não com a pressa afoita dos garotos, mas lentamente apenas roçando os lábios procurando a textura da boca e depois lentamente a língua entre os dentes. Beijou Helena ainda umas duas vezes: uma no quintal da escola e outra na casa de Helena quando foram estudar para a prova de História. Mas depois percebeu que aquela não era sua praia. Gostava mesmo era dos rapazes. 

E com os rapazes se divertiu. Dos canalhas aos babacas, dizia. Uma vez quase casou com Alfredo que havia sido noivo de  Márcia, uma amiga sua. Que loucura. Márcia havia traído Alfredo  descaradamente e Dora o conheceu neste momento de fragilidade. O cara ficou de quatro por Dora. Entupiu-lhe de mimos & rosas, de brincos & brigas, de pérolas & porcos, de beijos & fodas, mas Dora cansou. Cansou da prisão sentimental  do amor seguro imaginando-se mulher-escrava de um homem só, dona de casa de bobs e avental comprados na Lobrás. Dispensou Alfredo e mais tarde Roberto. No mesmo barco partiram  Leandro, Maurício,  Luís XV, Luís XVI, XVII e toda corte da França e de São Luís do Maranhão.

E agora que o tempo passou e Dora  aos 50 ou 55 ( que ela não diz a idade pra ninguém nem morta ) não chama mais atenção de ninguém. Desapareceu o encanto que havia no início. Seus olhos perderam o brilho, a pele descorou, as rugas emergiram, o cabelo afinou, ficou ralo. Anda caindo lentamente toda noite quando dorme sozinha no quarto da antiga casa de sua mãe enquanto folheia velhos álbuns de fotografia a espera  de um telefonema, apenas um; de alguém que ainda guarde a vaga lembrança de antes. Por vezes, a esperança lhe escapa e vai atrás de antigas agendas amareladas a procura de telefones imaginários. Outras vezes, sobe-lhe algum lampejo que logo é esquecido enquanto caminha do quarto para a sala na hora da novela das sete porque aquela moça bonitinha que faz o papel principal parece muito com ela quando era novinha. E aí invade-lhe aquela ansiedade, que vem desde as sobrancelhas, de escutar Nora Ney num canto escuro da casa fumando um cigarro com uma dose de rum Montila. On the rocks.

Ninguém me ama, ninguém me quer/ninguém me chama de meu amor....

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ASSOMBRAÇÕES




Sexta-feira, 13. Que nem hoje!

Felizário nunca havia atirado de espingarda. Também nunca havia visto uma assombração. Naquela noite viveria as duas experiências de uma só vez. Um barulho, um vulto na mata, o rugido da cartucheira espalhou-se feito um trovão de tempestade pela noite e o coice da arma atirou-o uns tres metros pra trás por cima de uma moita de cansação no pé de um tucunzeiro; e houve no ar uma mistura de cheiros de almíscar e cravo de defunto, uma profusão de ruídos esgarçantes como se um animal tivesse sido rasgado no meio. Naquele instante uma rasga-mortalha passou rasante por cima de sua cabeça mirando-lhe nos olhos. Foi sua última lembrança antes de apagar.

Tres semanas após este incidente, Felizário ainda guardava as sequelas daquela noite: um espinho de tucum cravou e quebrou o olho no meio dos seus lombos. Doía toda vez que ele mexia as costas. Enquanto tomava uma dose de pinga na bodega da vila naquela quentura de meidia, um desconhecido de terno surgiu de repente ao seu lado e disse:

-Atirando no que não vê?

Felizário levou um susto e quase cai do tamborete. 

-Sai pra lá siô... Me dando um susto, home...Eu lhe conheço?

-Conhece e não conhece.

-Pois se apresente de novo.

-Nem preciso. Mas olhe bem pra mim que você vai se lembrar. 

Felizário olhou nos olhos do desconhecido e foi como se tivesse visto sua alma arder no meio dos infernos. 
Antes que pudesse expressar uma palavra, o desconhecido apontou-lhe o dedo e disse:

-Vim buscar sua alma por conta de uma dívida de seu bisavô comigo, aqui nestas terras.

-Moço, se a dívida é dele, cobre dele.

-Deixe de ser besta homem. Dívida de parente com o diabo alguém da famíla tem que pagar. E o escolhido foi você. Lhe espero hoje à noitinha, na beira da lagoa.

-E eu vou pagar com quê criatura?

-Com uma coisinha besta que você não gastou um tostão pra comprar...Sua alma!

Após estas palavras, a criatura se afastou e sumiu no meio duma ventania que subitamente desceu pela ruas revirando as coisas, as roupas nos varais e as panelas dos jiraus dos casebres ali do lado.

Felizário chegou no riacho ao anoitecer. Não teve que esperar muito tempo. Logo ouviu uma rufada de asas e quando se virou a criatura havia se materializado a cerca de 30 metros na sua frente. Usava o mesmo terno preto.

Não pensou duas vezes puxou a espingarda, mas o diabo deu um rodopio no ar e Felizário o viu se transformar na criatura mais horripilante que jamais tinha visto: os dentes mal cabendo na boca, os olhos parecendo dois carvões em brasa, os chifres de bode e uma pele escamosa que nem da velha Juritinga. O bicho bufou e soltou uma labareda de fogo pelas ventas que se não fosse o salto de capoeirista que Felizário deu pro lado ele teria torrado que nem a casa de Zé Roela quando ele esqueceu a chaleira de café acesa no fogo.

E então começou o escarcéu de balas no rumo do diabo que revidava com carambelas e rojões de fogo e  enxofre que agora saíam tanto da boca quanto do rabo e quem via de longe achava que era festa de São João que tinha vindo mais cedo. Era fogo prum lado, bala pro outro, um troar relinchante de pavor nunca visto naquelas redondezas. E quando tudo já parecia perdido, a última bala benzida e marinada três dias no alho, o tiro misericordioso resvalou no rabo ossudo da criatura e penetrou diretamente no seu ânus.

Não durou três segundos. O diabo aquietou-se espantado como que acometido por uma diarréia aguda antes de explodir em milhares de pedacinhos luminescentes confundindo-se com os vaga-lumes da noite pra alegria dos  sapos que saíram da lagoa para um banquete farto no meio daquele festim dos infernos.

domingo, 16 de maio de 2010

ARIDEZ

Lugarzinho fim de mundo este. Não tem nem vento que vento não gosta de lugar quente e abafado. Vento gosta é de tá correndo de surrupiar folha das árvores  de fazer remoinho de arribar saia de mulher bonita. E tem que ter alguém soprando buchechudo lá nos meio das nuvens. Anjo querubim serafim. Que é que vento é que nem gente só que a gente não vê.

Quase meidia. Lá vem Manfredo  puxando o jumento pelas rédeas. Depois que a mulher morreu ele fica por aí perambulando todo dia debaixo desse sol quente. Também dou até razão. Vai fazer o que mesmo em casa sozinho? Na rua pelo menos ele vê os conhecidos. Fica se entretendo. Ele tem  pena de montar no bicho mas é que o bicho é tão empacado que quando alguém monta nele o bicho fica parado não anda e como Manfredo é aperreado e  não gosta de vir sozinho na cidade traz o bicho pra fazer companhia. Antigamente ele vinha com Folgado um cachorro viralata mas o pobre coitado deu uma bicheira que tava deixando o couro dele todo em carne viva e Manfredo com pena não queria sacrificar o companheiro de andança mas como se fosse uma prece divina de São Benedito dos Pretos o miserável acabou sendo atropelado por uma destas vans que todo dia e toda hora vem da capital pro interior e não respeita ninguém e corre pelo meio das ruas e quando não atropela gente mata cachorro.

Fora essa falta de vento têm  os fuxicos. Vê aquelas duas conversando naquela meia-morada ali? Tão falando da vida alheia e eu boto minha mão no fogo se não tão falando da filha do Quincas da padaria. Tão olhando pra lá... Devem tá dizendo que a menina engordou muito depois que foi passar as férias na capital na casa dos primos. Devem tá achando que ela tá prenha. Êta povo falador! Se engorda tá buxuda se emagrece tá doente...Vá entender. Mas falta do que fazer é isso. Mente ociosa é oficina do capeta.

Eu fico pensando num lugar pra além das capoeiras onde o vento corre  casa adentro no meio das flores remoendo o cabelo das árvores beliscando a crosta das águas frias de um rio que nunca seca. Não este rio daqui que é só greta de lama seca e osso lambido de peixe morto. Mas não sei se esse lugar existe de verdade e se existe não sei onde fica. Talvez  qualquer dia desembeste a procurar  e eu chegue tão pertinho a ponto de sentir o cheiro d'água molhando a terra  e os cabelos de mãe-d'água que é um cheiro conhecido desde menino da beirada de riachos dos pés de juçara e buriti caindo no rio  fazendo ploft! atraindo as piabas, joão-duro,  os piaus e as carás.

Eu não sei desde quando estou aqui preso nesta vidinha onde nada acontece sob o sol desta terra neste lugar precário que tem me roubado as lembranças e há anos venho resistindo contra o calor e às velhas histórias empestadas de mormaços.

Eu queria ter coragem de escapar no rumo da rua lá pro fim da rua lá onde termina as casas e começa o mato seco que cresce no meio das pedras secas que levam no caminho de volta pra algum lugar.

Lugarzinho quente este. Meio dia e não se ouve nem um pio de ave. Que é que passarinho mora dessa tá num pé de pau na sombra na beira dum riacho fazendo ninho e passarinhada. Que é que passarinho não se mostra pra qualquer um só se mostra quando quer e não é bicho besta de ficar pegando sol na cabeça e ficar assobiando pra fazer graça pra qualquer um.

Cantiga nestas horas só o estalo do mato secando nos confins destas veredas.

domingo, 2 de maio de 2010

A DE EINSTEIN

Seu Adalberto adentra no cartório de registro tira o chapéu surrado da cabeça e cumprimenta o escrivão que está sentado quase dormindo sonolento numa cadeira velha de treliça poída.
-Dia's dotô iscrivão!
-Bom-dia seu Adalberto! Que é que trás o senhor por estas bandas?
-Quiria tirá rizistro do meu fio!
-Ah sim. Tô sabendo. O senhor foi pai de novo. Meus parabéns! É pra já!
O escrivão se levanta meio que preguiçoso da cadeira e arrastado numa coíra da molesta começa a remexer no meio da papelada em cima da mesa e abre gaveta pega caneta lápis enquanto pergunta a seu Adalberto como é o nome da criança.
-Ainstain.
O escrivão se vira  arregalando as sobrancelhas e passa a vista no balcão como se estivesse procurando algo e diz:
-Onde?
-Onde o quê?
-Onde está o nome da criança? O senhor anotou num papel?
-Pra mode ocê tá priguntando isso?
-Seu Adalberto eu perguntei o nome da criança!
-E eu já disse sô!
-Não! O senhor disse: aí está! Está aonde?
-Num disse aí está, ocê se enganô!
-Ok, vamos começar de novo. Qual o nome da criança?
-Ainstain.
-Olha aí, você disse de novo!
-Disse o que dotô?
-Aí está! Está aonde?
-Dotô ieu disse Ainstain! Ainstain é que é o noume da criança.
-Ah! Tá bom. E como é que se escreve?
-Num sei!
-Como você vai batizar seu filho e não sabe como se escreve?
-Num sei. Pra mode isso que ieu vi aqui homi. Quem nhinscreve é o sinhô! Ieu só sô é o pai. .
-Mas era bom o senhor saber como escreve...De repente precisa pra alguma coisa...Uma consulta médica...
-Vira pra lá saboca lazarenta sô!
-É a necessidade...Criança, o senhor sabe...
-Sei não! Só sei que pruriquanto ieu só vô chamá o minimo pela boca: Ê Ainstain!!!. Num vó de pricizá iscrevê o noume dele...
-É, mas eu não tenho obrigação de saber escrever estes nomes estrambóticos!
-Óia só...Noume istrambólico é o seu! Istrambrólico e isquisito! He, he, he!
-Mas o senhor nem sabe meu nome!?
-O dotô num sabe meu noume? Cuma intão ieu num posso sabê do seu?
O escrivão não respondeu.
-Ah! lhe peguei dotô. É pra mode que seu noume tá na poita!
-Na porta?
-É dotô na poita! Tá iscrito lá Escrivão Jumentado. Num é o sinhô?
-Juramentado seu Adalberto!!! Escrivão Juramentado! E esse não é meu nome!
-Vixe e pra mode que o sinhô bota o noume dos outros na sua poita?
-Olha vamos pular esta parte. Se o senhor quiser registrar seu filho me diga como se escreve senão eu boto do jeito que eu entendi
-Mas o sinhô cabô de falá que num intendeu?
-Seu Adalberto vamos ser sensatos. Porque o amigo não coloca um nome mais fácil, mais brasileiro...
-Mas Ainstain é noume brasileiro!
-Que brasileiro o quê? O senhor sabe ao menos como se escreve Einstein?
-Num sei não. Só sei que é com A!
-Que A o quê...Eisntein se escreve com E! Einstein é o nome de um grande físico alemão.
-Grande coisa nascê na Alimanha. O meu nasceu foi no Codó! O meu se iscreve com A que é porque é brasileiro. O minino nasceu num foi aqui no Brasil?
-Foi!
-Num tô rizistrano ele num é no Brasil, num tô?
-É...
-Então? Se ele tivesse de nascê no istrangeiro o noume dele num era brasileiro mas pra mode ele nasceu no Brasil o noume dele num é istrangeiro. Num tô certo?
O escrivão deu de ombros.
-E outra coisa dotô: lá em casa os homi é tudo com A: eu, Aristota, Aristeu e Aristide. Só a muié que é com U. U de Untônia. Fica tiririca pro num ser igual a nóis! He, he, he!
-Seu Adalberto olha o senhor me desculpa mas eu não vou poder registrar seu filho...
-Dotô num se ofende um homi assim... E eu vim lá da bêra do Tapicuru inté aqui. É pra mais de uma légua. Pra mode que porque é que num pode tirar o rizistro da criança? Ié dinheiro? Ieu pago!!!
-Não se trata de dinheiro. É questão de princípios. Levando en conta que o senhor  é meio analfabeto e...
-Mei não! Sói todinho! Todinho Adalberto! Fio de Adalgisa com Roberto, o Betinho dos Bagre!
-Olha o senhor me dê licença que tá na hora do almoço. Tô vendo que esta conversa não vai levar a nada. Vou ter de fechar... O senhor faz o seguinte: vai ali na quitanda do Zé Bixim, come um pastel, toma um suco, pensa melhor, pensa num nome mais fácil depois o senhor volta aqui e a gente faz o registro.
E foi levando seu Adalberto até a porta da rua que foi meio a contragosto e disse:
-Pense bem! Bote um nome comum. Senão esse garoto vai enfrentar problemas com um nome desse assim tão...diferente.
-Pobrema é o que o dotô tarrumando cumigo...
O caboclo foi pra rua e como se tivesse uma tramela engatada na goela se virou apontando o dedo calejado em direção da porta fechada do escrivão e começou a budejar:
-Seu dotôzinho Jumentado. Fio duma égua que é quieu não volto mais aqui não seu corno!
-Vá comer homem! Deixe de ser burro! Burro e analfabeto!
-Adalberto seu fresco! Meu nome é A D A L B E R T O! Aprende ao meno dizê meu noume dotôzinho duma figa. Que vem dizê que Ainstain é com E! Inda se passa de dotô... Caba burro!
-Vá comer seu broco!
-Pula aqui pra fora pra eu passá meu canivete Collin no meio do seu buxo pra vê se sai um A ou um E de dentro dessa barriga mole! Seu frouxo!
Como o escrivão não deu mais resposta, seu Adalberto passou a mão por cima da boca pra limpar o suor, deu uma cusparada no meio da poeira, girou nos calcanhares e saiu chutando terra enquanto atravessava a rua para pegar o jumento e repetindo numa ladainha:
-Ainstain, Ainstain, o noume do moleque vai cê é Ainstain com  rizistro ou sem rizistro...
E pegou o jumento pelas rédeas e disse:
-E tu pára de empacar bixo ruim. Parece que tu é parente daquela peste. Vamô que vamô que agora quem vai te rizistrar soieu . Tu agora vai é se chamar é Iscrivão Jumentado. Ói! Num é que combina...É a mesma cara de lesado! Só farta o diproma de dotô. He, he, he!