quarta-feira, 31 de março de 2010

USA X USB

Michel Sokol escreveu na Rolling Stone do mes passado um artigo devastador sobre o maior pesadelo da indústria do entretenimento, os downloads ilegais de músicas, utilizando-se de uma metáfora do filme Avatar e o incômodo que isto causa em artistas como Bono e Lily Allen. Cito parte do texto:

"Liberdade, Igualdade e Fraternidade. É com um futuro assim que a humanidade sonha há pelo menos 200 anos. E o sonho não acabou, ao contrário, ganhou recursos para ser sonhado em 3D. É só colocar os óculos e ver a mata florescer fluorescente diante dos teus olhos, brilhando colorida num mundo em que todos têm uma trança no cabelo que não é uma trança, mas um cabo USB que serve para fazer download das árvores, dos bichos e até de Deus - tudo de graça. E quando alguém morre, transferem-se os arquivos da alma do morto para outro hardware, digo, corpo, e assim todos vivem felizes e conectados para sempre em um futuro que só não é perfeito porque o James Cameron vacilou ao colocar um rabo enorme e azul pregado no futuro do seu traseiro. Gostou? O Bono não. Ao que parece o vocalista do U2 é contra a idéia de um futuro azul, libertário, igualitário, fraterno e rabudo à base de download gratuitos."

No cinema, Hollywood acendeu hoje o sinal amarelo para a Espanha sobre a suspensão da distribuição de filmes para aquele país alegando que as vendas de DVD's caíram 75% em cinco anos por causa da pirataria e que o número de downloads ilegais passou de 132 milhões para 350 milhões entre 2006 e 2008.

Olhando hoje, mais de uma década depois, o Napster foi fichinha naquele celeuma todo inicial. A indústria do entretenimento é um monstro que come suas próprias entranhas e regurgita pra comer de novo como um animal insaciável. A mesma indústria que distribui filmes, discos e músicas é a mesma que estimula o consumo de compra de dvds, hardwares, softwares, banda larga e toda tecnologia de ponta que permite baixar e armazenar filmes num curto espaço de tempo e em drives cada vez mais compactos e possantes.

Há décadas esta indústria explorou o mercado como quis de uma maneira estática - produzindo e vendendo  a seu modo sem se importar com a opinião do consumidor. Quem apostou que a globalização fosse um rio fluente de $$$ tem que repensar seu modo de produção e criação, até porque são diversas variáveis a serem analisadas incluindo as peculiaridades legais de cada país.

Mas meu ponto de vista é o mesmo de Sokol: é uma guerra USA x USB e quem não reconstruir seu formato musical ou cinematográfico com relação à distribuição e venda, vai perder esta guerra para os artistas e estúdios mais criativos. 

Avatar foi uma destas criações. Foi reinventado desde as câmeras especiais desenvolvidas especialmente para as filmagens. Eu, por exemplo, nunca pensei em assistí-lo antes de outra forma que não fosse no cinema e em 3D.  Lost é outro exemplo. Mesmo com os episódios disponíveis para download uma semana antes de passar na TV é um sucesso de público e de vendas de DVD, por conta do formato criado pelos autores e pela interatividade dos fã através da internet.

Engana-se quem pensa que o consumidor não paga o preço justo por um produto justo. Apenas não gostamos de sermos sangrados no pescoço.

Um comentário:

May Santos disse...

Não sou a favor da pirataria. Mas penso que o preço que se paga por um produto original é absurdo. As classes mais pobres da sociedade só poderiam ouvir rádio, se fossem depender de dinheiro para comprar os originais...

É uma guerra mesmo


Beijos

Bom feriadão!