sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

JOGANDO DADOS COM DEUS


Dizem que quando se está para morrer a vida inteira passa diante dos olhos. Quando estava dentro de um carro que capotou alguns anos atrás, senti uma sensação semelhante. Naqueles poucos segundos do acidente, me veio a cabeça todas aquelas pessoas que amava e a sensação de que não as veria mais. Tudo acabaria ali. Bom, sobrevivi ao acidente e nem cheguei a ver a luz branca.


Mas no dia seguinte ao acidente fiquei mais atento às coisas que me cercavam e imaginando que se tivesse acontecido o pior não estaria ali compartilhando daquelas pesssoas e das situações presentes. Isso me fez refletir sobre duas variáveis que determinaram minha decisão na noite anterior: ir ou não ir à festa? As decisões que tomamos funcionam como um jogo de dados num RPG?

Escrevo isso tendo em mente o Gerador da Improbabilidade Finita, citado no Guia do Mochileiro das Galáxias. Uma definição engraçada para um assunto complexo: a física quântica e se podemos prever o futuro ou se ele é arbitrário e aleatório.

Na minha formação científica aprendi que os eventos se refletem em diferentes escalas, sejam elas maiores ou menores. Por exemplo, um evento geológico como um terremoto ficará gravado tanto na topografia da região quanto no interior dos minerais das rochas da região afetada.

Segundo os cientistas a física quântica somente explicaria eventos para o mundo do muito pequeno, como os átomos. Porém como somos feitos de moléculas - que é a estrutura funcional básica dos átomos - e elas são a força motriz da natureza do universo, divago sobre quem realmente toma decisões por nós na raiz do nosso instinto primordial.

Imagine que você vai sair neste instante e percebe que o pneu do seu carro está vazio. A sequência de situações que você passaria, as pessoas com quem você cruzaria ou manteria contato, não se repetirão. Você troca o pneu mas no caminho um semáforo ficou amarelo e você tem poucos segundos para decidir se passa ou não. O que você decidir irá afetar seu futuro. O filme Efeito Borboleta reflete este exemplo.

Assim, num dado instante de nossa vida precisamos decidimos seguir este ou aquele curso, se vamos fazer mestrado em outro estado, em outro país ou não, se vamos lecionar ou fazer pesquisa científica, se vamos casar agora ou só ano que vem, etc. Todas estas decisões mudam nossa vida pra sempre. E se pudessemos alterar algumas destas escolhas, nossa vida mudaria pra melhor ou para pior? São perguntas sem resposta.

Cito um trecho de Bradley Trevor Greive no prefácio do Guia do Mochileiro:

"  Longe de perder o sentido, o que você faz nesta vida subitamente torna-se incrivelmente importante, já que você só tem essa oportunidade de fazer a coisa certa, de mudar alguma coisa, de contribuir de alguma forma para aqueles que você ama ou que seguirão seus passos ".

Reporto-me a uma palestra de Stephen W. Hawking em que ele diz que na física quântica não se pode definir o comportamento de partículas que entram no buraco negro, que é possível medir somente a partícula que sai. Voltando às variáveis do acidente, não se pode tomar as duas decisões ao mesmo tempo - ir ou não ir a festa - e nem precisar as consequências. Somente posso mensurar se a decisão foi viável depois que ela de fato acontecer. Não há como prever o futuro.

Ainda na palestra, sobre este assunto Hawking finalizaria: " não somente Deus definitivamente joga dados, mas Ele algumas vezes nos confunde jogando-os onde eles não podem ser vistos".

2 comentários:

Amanda Barreto disse...

Gostei muito do texto querido. Muito inteligente e instigante. Parabéns!!!

Gabriel Grützmann Grigoletti disse...

Deus é perfeito.