domingo, 2 de maio de 2010

A DE EINSTEIN

Seu Adalberto adentra no cartório de registro tira o chapéu surrado da cabeça e cumprimenta o escrivão que está sentado quase dormindo sonolento numa cadeira velha de treliça poída.
-Dia's dotô iscrivão!
-Bom-dia seu Adalberto! Que é que trás o senhor por estas bandas?
-Quiria tirá rizistro do meu fio!
-Ah sim. Tô sabendo. O senhor foi pai de novo. Meus parabéns! É pra já!
O escrivão se levanta meio que preguiçoso da cadeira e arrastado numa coíra da molesta começa a remexer no meio da papelada em cima da mesa e abre gaveta pega caneta lápis enquanto pergunta a seu Adalberto como é o nome da criança.
-Ainstain.
O escrivão se vira  arregalando as sobrancelhas e passa a vista no balcão como se estivesse procurando algo e diz:
-Onde?
-Onde o quê?
-Onde está o nome da criança? O senhor anotou num papel?
-Pra mode ocê tá priguntando isso?
-Seu Adalberto eu perguntei o nome da criança!
-E eu já disse sô!
-Não! O senhor disse: aí está! Está aonde?
-Num disse aí está, ocê se enganô!
-Ok, vamos começar de novo. Qual o nome da criança?
-Ainstain.
-Olha aí, você disse de novo!
-Disse o que dotô?
-Aí está! Está aonde?
-Dotô ieu disse Ainstain! Ainstain é que é o noume da criança.
-Ah! Tá bom. E como é que se escreve?
-Num sei!
-Como você vai batizar seu filho e não sabe como se escreve?
-Num sei. Pra mode isso que ieu vi aqui homi. Quem nhinscreve é o sinhô! Ieu só sô é o pai. .
-Mas era bom o senhor saber como escreve...De repente precisa pra alguma coisa...Uma consulta médica...
-Vira pra lá saboca lazarenta sô!
-É a necessidade...Criança, o senhor sabe...
-Sei não! Só sei que pruriquanto ieu só vô chamá o minimo pela boca: Ê Ainstain!!!. Num vó de pricizá iscrevê o noume dele...
-É, mas eu não tenho obrigação de saber escrever estes nomes estrambóticos!
-Óia só...Noume istrambólico é o seu! Istrambrólico e isquisito! He, he, he!
-Mas o senhor nem sabe meu nome!?
-O dotô num sabe meu noume? Cuma intão ieu num posso sabê do seu?
O escrivão não respondeu.
-Ah! lhe peguei dotô. É pra mode que seu noume tá na poita!
-Na porta?
-É dotô na poita! Tá iscrito lá Escrivão Jumentado. Num é o sinhô?
-Juramentado seu Adalberto!!! Escrivão Juramentado! E esse não é meu nome!
-Vixe e pra mode que o sinhô bota o noume dos outros na sua poita?
-Olha vamos pular esta parte. Se o senhor quiser registrar seu filho me diga como se escreve senão eu boto do jeito que eu entendi
-Mas o sinhô cabô de falá que num intendeu?
-Seu Adalberto vamos ser sensatos. Porque o amigo não coloca um nome mais fácil, mais brasileiro...
-Mas Ainstain é noume brasileiro!
-Que brasileiro o quê? O senhor sabe ao menos como se escreve Einstein?
-Num sei não. Só sei que é com A!
-Que A o quê...Eisntein se escreve com E! Einstein é o nome de um grande físico alemão.
-Grande coisa nascê na Alimanha. O meu nasceu foi no Codó! O meu se iscreve com A que é porque é brasileiro. O minino nasceu num foi aqui no Brasil?
-Foi!
-Num tô rizistrano ele num é no Brasil, num tô?
-É...
-Então? Se ele tivesse de nascê no istrangeiro o noume dele num era brasileiro mas pra mode ele nasceu no Brasil o noume dele num é istrangeiro. Num tô certo?
O escrivão deu de ombros.
-E outra coisa dotô: lá em casa os homi é tudo com A: eu, Aristota, Aristeu e Aristide. Só a muié que é com U. U de Untônia. Fica tiririca pro num ser igual a nóis! He, he, he!
-Seu Adalberto olha o senhor me desculpa mas eu não vou poder registrar seu filho...
-Dotô num se ofende um homi assim... E eu vim lá da bêra do Tapicuru inté aqui. É pra mais de uma légua. Pra mode que porque é que num pode tirar o rizistro da criança? Ié dinheiro? Ieu pago!!!
-Não se trata de dinheiro. É questão de princípios. Levando en conta que o senhor  é meio analfabeto e...
-Mei não! Sói todinho! Todinho Adalberto! Fio de Adalgisa com Roberto, o Betinho dos Bagre!
-Olha o senhor me dê licença que tá na hora do almoço. Tô vendo que esta conversa não vai levar a nada. Vou ter de fechar... O senhor faz o seguinte: vai ali na quitanda do Zé Bixim, come um pastel, toma um suco, pensa melhor, pensa num nome mais fácil depois o senhor volta aqui e a gente faz o registro.
E foi levando seu Adalberto até a porta da rua que foi meio a contragosto e disse:
-Pense bem! Bote um nome comum. Senão esse garoto vai enfrentar problemas com um nome desse assim tão...diferente.
-Pobrema é o que o dotô tarrumando cumigo...
O caboclo foi pra rua e como se tivesse uma tramela engatada na goela se virou apontando o dedo calejado em direção da porta fechada do escrivão e começou a budejar:
-Seu dotôzinho Jumentado. Fio duma égua que é quieu não volto mais aqui não seu corno!
-Vá comer homem! Deixe de ser burro! Burro e analfabeto!
-Adalberto seu fresco! Meu nome é A D A L B E R T O! Aprende ao meno dizê meu noume dotôzinho duma figa. Que vem dizê que Ainstain é com E! Inda se passa de dotô... Caba burro!
-Vá comer seu broco!
-Pula aqui pra fora pra eu passá meu canivete Collin no meio do seu buxo pra vê se sai um A ou um E de dentro dessa barriga mole! Seu frouxo!
Como o escrivão não deu mais resposta, seu Adalberto passou a mão por cima da boca pra limpar o suor, deu uma cusparada no meio da poeira, girou nos calcanhares e saiu chutando terra enquanto atravessava a rua para pegar o jumento e repetindo numa ladainha:
-Ainstain, Ainstain, o noume do moleque vai cê é Ainstain com  rizistro ou sem rizistro...
E pegou o jumento pelas rédeas e disse:
-E tu pára de empacar bixo ruim. Parece que tu é parente daquela peste. Vamô que vamô que agora quem vai te rizistrar soieu . Tu agora vai é se chamar é Iscrivão Jumentado. Ói! Num é que combina...É a mesma cara de lesado! Só farta o diproma de dotô. He, he, he!

5 comentários:

marcos assis disse...

hahahaha
cismou com os nomes!

um prazer ter você como leitor, caro colega das letras!

abração!

May Santos disse...

^-^
Combinou com o outro post sobre nomes estranhos
kkkkk
Mas o pessoal do interior é assim... Meu avô quis por o nome da minha tia de Jane (ele era fã do Tarzan), mas como ele não sabia falar, registrou como Jandes ^^

Tirando toda a realidade cruel de viver com esses nomes absurdos... Adorei a história :D

Beijos
Boa semana!

Amanda Barreto disse...

Jorge saudadeee de ler seus textos. Pelo que percebi está cada vez com mais seguidores, muita bacana isso. Você acertou quando falou no meu blog sobre um tempo para descansar, estou melhor agora, bem melhor. Tenho muita coisa para postar, aos poucos vou acertando meu espaço. Forte abraço e boa semana!

Jorge Jansen disse...

Realmente peguei carona no outro post pois a história pintou na cabeça e não quis desperdiçá-la; aliou-se a isso o linguajar característico do interior tão vivido por mim na última quase-década por conta do contato com esta gente simplória.

marcos assis disse...

sem nome
http://cardeo.blogspot.com/2010/01/sem-nome_09.html


a poesia se perdeu em mim

onde é que foi parar minha poesia

vou fazer uma poesia de não frases