quarta-feira, 12 de maio de 2010

DANDO A MÃO À PALMATÓRIA


Até hoje digo sem pestanejar quanto é oito vezes sete, sete vezes nove, nove vezes seis e outras continhas da aritmética básica, tudo isso como herança de aulas particulares regadas à palmatória.

Palmatória: instrumento de tortura utilizado no modelo pedagógico e difundido por professores e escolas no século passado, constituído de uma bolacha de madeira de dois dedos de espessura com alguns furinhos no meio e presa a um cabo que servia de apoio para o torturador   professor desferir os golpes na palma da mão dos alunos com aval de seus pais.

Perceberam o sublinhado acima? Foi proposital. Os professores eram uma espécie de 007 do mal. Recebiam dos pais uma Licença para Bater.

O momento histórico ainda era a ditadura do regime militar. Talvez por isso houvesse essa permissividade dos pais. Se o cidadão que pisasse fora da linha já tava sendo levado pro DP pra um interrogatório no pau de arara, imagina aluno que não queria estudar direito....

A sessão de tortura era composta às vezes por um interrogatório pessoal, um tête-à-tête entre o professor e o aluno num pinga fogo rápido: 3 x 3? NOVE! 5 x 4 = VINTE! 8 X 6? Huuuum... 8 x 6??? Não sei... Num sabis??? Abre a mão: PÁ!!!! 

Outras vezes virava um tipo de brainstorming onde os alunos perguntavam a tabuada em grupo com o tortussor servindo de mediador. Nestes casos quem errava levava uma bolacha de palmatória no meio da mão daquele fez a pergunta ( claro, desde que este também soubesse a resposta. Se não soubesse apanhavam os dois ).

Na tabuada me saía bem, mas quando a coisa descambava pra verbo, ai,ai, ai...Até hoje me apavoro com pretérito perfeito do subjuntivo, mais-que-perfeito, verbos defectivos, irregulares e argh!!! Por que a gente não nasceu falando logo inglês? I have, you have, We have....

Mas não fui tão mal na língua. Aqui e ali vou encaixando um verbo, um pronome sem titubear muito. 

Pra alegria de muitos isso ficou no passado.

Mas lembra do ditado de sua vó que dizia que "não há um mal que não traga um bem?" Pois é, a palmatória teve suas vantagens. A maioria das pessoas que conheço que passaram por esta experiência reconhece que o aprendizado ficou sedimentado até hoje. 

A flexibilização dos métodos com o passar dos anos permitiu que alunos menos interessados no aprendizado formassem uma geração marcada pelo Cltr + V/Cltr + C e pelas pérolas extraídas das provas do Enem que rolam pela internet.

Não quero associar com isso a palmatória ao aprendizado nem fomentar a violência sob qualquer aspecto. As questões da educação do país são mais complexas, a diversidade cultural também e cabe as atuais gerações descobrirem os melhores métodos de ensino.

4 comentários:

Lara S. disse...

Último parágrafo apoiadíssimo!Ótimo texto.Parabéns!
;*

Renato Baptista disse...

Olá Jorge...

Estamos apresentando uma Mostra Especial de Poeminis – “Encontros e Desencontros” a partir de imagens dos trabalhos da artista plástica Betty Martins.
Convidamos você, especialmente, para que conheça nossa obra no blog: http://poeminiseimagens.blogspot.com
Sua presença será uma honra para nós!

Beatriz Prestes e Renato Baptista

Amanda Barreto disse...

O pior da geração control c // control v é que eles não sustentam uma ideia, não aprofundam em nenhum assunto. O cérebro deles lembra a rapsódia descrita no livro Macunaíma, um montão de coisas juntas, fracionadas, picadas, mas sem uma leitura profunda do todo. Tenho medo do método da palmatória, do milho, ou até do chapéu de cone que significava burro, mas tenho mais medo da preguiça que ronda a cabeça de muitos alunos que acham que para estar na moda tem que mascar chiclete, andar de calça jeans e falar um montão de gírias estúpidas e assim caminha a humanidade. São os tempos modernos, infelizmente. Viva o empobrecimento intelectual!

Anônimo disse...

Excelente seu post.
Minha filha estuda em escola particular e diz que em sua classe em certas aulas, enquanto os professores explicam, a maioria das alunas ficam enviando e recebendo torpedos nos seus celulares, digitam numa velocidade espantosa, chegando a trocar até 30 torpedos numa única aula. Nisso essa geração está ficando esperta. Tenho medo do futuro deles.